quinta-feira, 20 de dezembro de 2012

Vertigo; Holy Motors; Life Of Pi; On The Road; etc... desde 20Dez12 nos cinemas nacionais

Na penúltima semana de estreias nas salas de cinema portuguesas, temos algumas propostas muito curiosas.





Começo por referir aquela que é a mais importante, pois é um regresso de um dos maiores clássicos de sempre de Hitchcock, para mim a sua obra-prima e um dos meus filmes favoritos de sempre.
A questão maior aqui é porque devemos de o ir ver ao cinema, quando a maior perte de nós, eu inclusive, o temos em DVD (ou outro formato) a reluzir lá na estante? Ora bem... porque "Vertigo" regressa em versão remasterizada, ou seja, com melhor imagem e som numa cópia digital de alto nível, configurando-se também numa rara oportunidade de redescobrir esta obra numa sala de cinema como nunca se a viu.


Depois, esta semana reserva ainda duas estreias que estão a figurar nas listas anuais dos melhores do ano.
Refiro-me a "Holy Motors" do Leos Carax (tido como uma obra livre e não convencional e que surpreende -só vendo se sabe)...



... e o "Life of Pi" de Ang Lee (a recriar visualmente o fantástico do livro que adapta - e não esquecer o tigre digital).



Também o realizador brasileiro Walter Salles a adaptar um livro tido como difícil em "On The Road", reunido com um elenco bastante interessante (apesar de o filme não deslumbrar totalmente e não ser verdadeiramente Bom, é ainda assim muito interessante de ver, pois é um road-movie que aponta sobre o saber viver a vida e a perseguição de serem pessoas livres a fazerem o que querem - 6/10 Interessante).



E sim, há mais uma animação muito a jeito para esta fase natalícia... but who cares, right?

Mesmo que não possam ir ao cinema... façam na mesma por ver filmes de outras formas (hã... ninguém se importa como...).


2 comentários:

João Sousa disse...

Dos muitos filmes de Hitchcock que conheço - e conheço-os para lá dos que, canonicamente, são considerados os seus melhores -, acho Vertigo o melhor, o mais perfeito. Mas não é dos que me dá mais prazer ver. Isto não é um paradoxo - é mesmo um sinal da grandeza do filme.

Esteticamente, Vertigo é um filme lindíssimo. Em termos de narração, é um exemplo de virtuosismo, em particular as vastas sequências sem diálogo, apenas pontuadas pela música, mas que não impedem o avançar da narrativa ou o desenvolvimento dos personagens (Hitchcock, não o esqueçamos, ainda vem do cinema mudo). Tecnicamente, Vertigo é um portento, e vê-lo em sala uma experiência que dificilmente se esquece (eu fi-lo na passagem comercial de há uma dúzia de anos). A música é, na minha opinião, uma das grandes bandas sonoras do Cinema.

Mas Vertigo é um filme que me chega a causar desconforto. Porque a história não é uma história feliz ou agradável, de todo. Até certo ponto, é sórdida: um homem, apaixonado com tanta obsessão por uma morta que a tenta recriar numa dupla, tem o seu quê de doentio. E Jimmy Stewart, tão popular pelos seus papéis heróicos e de bom rapaz, brilha neste desempenho, nesta desagradabilidade. Stewart criou um personagem do qual posso sentir pena, pelo seu desespero nostálgico, mas pelo qual não consigo sentir grande simpatia dada a crueldade com que manipula Judy e a ignora enquanto pessoa.

Judy, por outro lado, acaba por ser quem me inspira mais simpatia. Apaixonada por John, deseja ser amada por quem é mas, no que se pode considerar um derradeiro sacrifício por amor, deixa-se (re)transformar em Madeleine. Judy anseia pelo amor de John, satisfazendo-se mesmo com este vendo-a como outra pessoa. Mas isso é impossível, pois sendo Madeleine uma criação sua feita para enganar John no início do filme, é também uma idealização que este foi criando enquanto a seguia. Por isso, Judy, que foi Madeleine, nunca conseguirá ser a Madeleine de John. E Kim Novak tem uma performance notável, pois consegue mostrar-nos uma Madeleine reinventada que não é exactamente a Madeleine do início - continua a perceber-se a Judy por baixo, no seu olhar para John.

Enfim, tanto mais que se podia dizer sobre Vertigo: que o personagem de Stewart, na sua obsessão em modelar Judy na sua mulher ideal, é um espelho de Hitchcock e da forma como este pretendia controlar as suas actrizes/musas; que o filme é um ensaio sobre a identidade; que a subida ao campanário, no final do filme, é uma alegoria à lenda de Orfeu, que desceu ao submundo para recuperar a amada perdida - e como Orfeu, John perde-a segunda vez e em definitivo quando chega ao topo.

Vertigo é uma das grandes obras do Cinema e a prova de que Hitchcock não foi apenas um grande realizador de suspense - foi, sim, um grande Artista.

Arm Paulo Fer disse...

Totalmente de acordo com tão bom comentário João Sousa. Obrigado! Vertigo é top cinema! Veneração total!