Adianto que na altura o que pretendia era uma espécie de novo "Pulp Fiction". Na verdade, "Jackie Brown" é muito diferente e a primeira sensação que transmite é a de que Tarantino apresentou-se mais sério e deixou a excitação de parte para nos apresentar algo mais sólido, de mestria inatacável, pode-se assim dizer.
Este artigo não tem por objectivo fazer a critica ao filme, que é muito bom (mas são todos!). Não é alucinado como outros títulos de Tarantino... mas é de uma categoria singular na obra deste magnifico autor.
Sendo mais preciso, a razão deste artigo é a canção que define este filme. Tarantino disse um dia que, a partir do momento em que escolheu a canção certa para o arranque do filme, que tinha na cabeça, que isso lhe alimentou sobre todo o resto a fazer no filme. E dou-lhe razão pois, na altura, o que mais me marcou foi a canção do inicio do filme.
Jackie Brown (Music From The Miramax Motion Picture)
O inicio de "Jackie Brown":
Pois é este som "Across 110th street" de Bobby Womack (1972), que define todo o filme.
Ouvi-la significa imediatamente relembrar esta cena inicial.
A escolha é tão certeira que, no arranque do filme somos transportados para o feeling dos 70, com este soul/funk. Ritmo cadenciado numa soma de várias partes que resultam em algo esplenderoso. O filme fica imediatamente pontuado e ter a Pam Grier na imagem, remete para os tempos de "Foxy Brown", cuja similaridade do novo nome e a cena em questão de abertura, até sugere que há um novo regresso. Como uma verdadeira segunda oportunidade.
(A actriz Pam Grier, tal como John Travolta de "Pulp Fition", viu a sua carreira ganhar um novo fôlego ao ser recuperada por Tarantino, da indiferença a que estava relegada)
Dizia como uma segunda chance de mudar algo. É isso que Tarantino apresentou. É um portento de filme por saber fazer as personagens do filme terem vida e espaço no filme para as entendermos. Este é um golpe a uma soma avultada de dinheiro, que é feito sem os sentido de "acção com fogo-de-artificio" muito comum nestes filmes. Mas aqui tudo isso é trocado por inteligência ardilosa na arquitectura de, mais que um plano, uma jogada arriscada para obter um objectivo recompensador. Poder mudar. É aqui que se evidencia a Jackie Brown, que no seu elaborado esquema, terá de se safar no meio de tantos "cérebros" motivados em perceber o que aconteceu ao dinheiro.
Chegado o fim, tudo se conjuga e somos ainda novamente brindados pela mesma canção da abertura do filme para o encerrar.
Só que desta vez a canção, apropria-se de tudo o que nos foi dado durante o filme, e acaba ela por ser uma espécie de remate do testemunho da personagem, que até a chega a trautear.
Para mim, à segunda vez que a escutamos nos momentos finais do filme, ganha um duplo e novo sentido. O que antes era uma acentuação de estilo temporal, agora soa a triunfo. A "Jackie Brown" atinge a sua redenção... o seu escape daquela vida. Pagando o seu preço...
Comovente!
O final de "Jackie Brown":
(arranjei um video legendado, para uma melhor percepção da canção... mas é em espanhol.)
Eu adoro esta canção e para mim, esta música é o filme.
Contudo, sendo este o filme de Tarantino, com imensas canções e as melhores escolhas que o realizador reuniu para um filme... um dia terei de abordar o resto da banda-sonora.
Stay tunned!


4 interessados:
Eu gosto imenso de Jackie Brown e uma das coisas que me faz gostar mais do filme é sem duvida a excelente banda sonora.
Esta canção inicial, é como tu dizes, reporta-nos de imediato para os 70's.
É realmente uma banda-sonora que marca este filme singular de Tarantino, tem imensas canções que são do melhor que se fazia há muitos anos.
Nem mais, concordo plenamente =)
Uma banda sonora excelente para um filme por vezes genial :)
Lembro-me de o ir ver na ultima sessão pela 00h30 ou coisa parecida e pensar que me ia deixar dormir mas... no fim foram das melhores horas que já passei num cinema ;)
Exactamente, Peter Gunn!
Eu e a minha mulher (na altura namorada) iamos muitas das vezes a essas sessões mais tardias (das 23h em diante). Este foi também um dos tais.
Uma banda-sonora que sobrevive ao filme e ao tempo (o Pulp Fiction igualmente ou mais) mas o mais importante é que é um filme de Tarantino invulgar na sua filmografia mas não menos valioso.
Como foge ao estilo enebriante dos outros... não é tão bem considerado pela maioria. Mas o filme é bom e artisticamente bem tratado por Tarantino. De certa forma tem até mais do savoir-faire europeu que do americano.
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