quinta-feira, 27 de janeiro de 2011

Cine-cena: "Jackie Brown" de Tarantino... a abertura e o final ao som de Bobby Womack (OST)

Quando em 1997, me sentei numa sala de cinema com um frenesim maior que o normal, tinha uma justificação: era a estreia de "Jackie Brown", um novo filme de Quentin Tarantino!

Adianto que na altura o que pretendia era uma espécie de novo "Pulp Fiction". Na verdade, "Jackie Brown" é muito diferente e a primeira sensação que transmite é a de que Tarantino apresentou-se mais sério e deixou a excitação de parte para nos apresentar algo mais sólido, de mestria inatacável, pode-se assim dizer.
Este artigo não tem por objectivo fazer a critica ao filme, que é muito bom (mas são todos!). Não é alucinado como outros títulos de Tarantino... mas é de uma categoria singular na obra deste magnifico autor.

Sendo mais preciso, a razão deste artigo é a canção que define este filme. Tarantino disse um dia que, a partir do momento em que escolheu a canção certa para o arranque do filme, que tinha na cabeça, que isso lhe alimentou sobre todo o resto a fazer no filme. E dou-lhe razão pois, na altura, o que mais me marcou foi a canção do inicio do filme.

Jackie Brown (Music From The Miramax Motion Picture)


O inicio de "Jackie Brown":


Pois é este som "Across 110th street" de Bobby Womack (1972), que define todo o filme.
Ouvi-la significa imediatamente relembrar esta cena inicial.

A escolha é tão certeira que, no arranque do filme somos transportados para o feeling dos 70, com este soul/funk. Ritmo cadenciado numa soma de várias partes que resultam em algo esplenderoso. O filme fica imediatamente pontuado e ter a Pam Grier na imagem, remete para os tempos de "Foxy Brown", cuja similaridade do novo nome e a cena em questão de abertura, até sugere que há um novo regresso. Como uma verdadeira segunda oportunidade.
(A actriz Pam Grier, tal como John Travolta de "Pulp Fition", viu a sua carreira ganhar um novo fôlego ao ser recuperada por Tarantino, da indiferença a que estava relegada)

Dizia como uma segunda chance de mudar algo. É isso que Tarantino apresentou. É um portento de filme por saber fazer as personagens do filme terem vida e espaço no filme para as entendermos. Este é um golpe a uma soma avultada de dinheiro, que é feito sem os sentido de "acção com fogo-de-artificio" muito comum nestes filmes. Mas aqui tudo isso é trocado por inteligência ardilosa na arquitectura de, mais que um plano, uma jogada arriscada para obter um objectivo recompensador. Poder mudar. É aqui que se evidencia a Jackie Brown, que no seu elaborado esquema, terá de se safar no meio de tantos "cérebros" motivados em perceber o que aconteceu ao dinheiro.

Chegado o fim, tudo se conjuga e somos ainda novamente brindados pela mesma canção da abertura do filme para o encerrar.
Só que desta vez a canção, apropria-se de tudo o que nos foi dado durante o filme, e acaba ela por ser uma espécie de remate do testemunho da personagem, que até a chega a trautear.

Para mim, à segunda vez que a escutamos nos momentos finais do filme, ganha um duplo e novo sentido. O que antes era uma acentuação de estilo temporal, agora soa a triunfo. A "Jackie Brown" atinge a sua redenção... o seu escape daquela vida. Pagando o seu preço...
Comovente!

O final de "Jackie Brown":
(arranjei um video legendado, para uma melhor percepção da canção... mas é em espanhol.)


Eu adoro esta canção e para mim, esta música é o filme.

Contudo, sendo este o filme de Tarantino, com imensas canções e as melhores escolhas que o realizador reuniu para um filme... um dia terei de abordar o resto da banda-sonora.
Stay tunned!

5 comentários:

Gema disse...

Eu gosto imenso de Jackie Brown e uma das coisas que me faz gostar mais do filme é sem duvida a excelente banda sonora.
Esta canção inicial, é como tu dizes, reporta-nos de imediato para os 70's.

ArmPauloFer disse...

É realmente uma banda-sonora que marca este filme singular de Tarantino, tem imensas canções que são do melhor que se fazia há muitos anos.

Peter Gunn disse...

Nem mais, concordo plenamente =)

Uma banda sonora excelente para um filme por vezes genial :)

Lembro-me de o ir ver na ultima sessão pela 00h30 ou coisa parecida e pensar que me ia deixar dormir mas... no fim foram das melhores horas que já passei num cinema ;)

ArmPauloFer disse...

Exactamente, Peter Gunn!
Eu e a minha mulher (na altura namorada) iamos muitas das vezes a essas sessões mais tardias (das 23h em diante). Este foi também um dos tais.

Uma banda-sonora que sobrevive ao filme e ao tempo (o Pulp Fiction igualmente ou mais) mas o mais importante é que é um filme de Tarantino invulgar na sua filmografia mas não menos valioso.
Como foge ao estilo enebriante dos outros... não é tão bem considerado pela maioria. Mas o filme é bom e artisticamente bem tratado por Tarantino. De certa forma tem até mais do savoir-faire europeu que do americano.

Jorge Teixeira disse...

Por acaso também adoro a música, lembro-me que depois de ter visto o filme entrou logo para a playlist de então. Tarantino mais uma vez revela-se um génio, na sua recorrente forma de nos concentrar, de nos fazer gostar dos diversos departamentos que os filmes fazem parte. Acaba por ser um realizador em que se nota bem, muito bem aliás, a preocupação em todas as fases do projecto.

Este Jackie Brown, apesar de não o considerar tão bom como outros do realizador, é um filme especial, que me diz bastante.

Cumprimentos,
Jorge Teixeira
Caminho Largo