sábado, 3 de dezembro de 2011

Cine-critica: Another Earth [2011]

Another Earth
(2011)


Realização:
Mike Cahill

Argumento: Brit Marling, Mike Cahill

Com:
Brit Marling, William Mapother, Matthew-Lee Erlbach...


Sinopse:
Rhoda Williams (Brit Marling), uma jovem mulher aceite no programa de Astrofísica do MIT, sonha explorar o cosmos. Um brilhante compositor, John Burroughs (William Mapother), chegou ao auge da sua profissão e está prestes a ser pai pela segunda vez.
Na senda da descoberta de uma nova Terra, surge a tragédia e as vidas destes estranhos acabam por se interligar.


Ora bem...

Aqui está um filme indie "interessante" (para mim substituo por: "belíssimo") com o selo "Festival de Sundance", de onde até arrecadou com dois prémios, com destaque para o prémio de juri por melhor filme.
Gostei de tudo, desde a realização intimista em estilo Darren Aronofsky (o tipo de filmagem de camera ao ombro coloca-nos no local das cenas), a actriz é fenomenal... e a banda-sonora é magnifica.

Contudo, há a esclarecer que o trailer induz os interessados num sentido que não é bem o do filme. Tudo o que é exibido no trailer está no filme mas da forma como
foi montado sugere ser mais ficção-científica do que realmente é exibida. O sci-fi aqui deve ser encarado como um mero artificio para conduzir o drama, pois bem que até poderia nem estar presente. No entanto, a inteligência desta ideia mash-up de géneros, dá um diferente alento a este drama indie e a componente sci-fi consegue ainda conferir aquele toque intrigante ao todo quando entra em cena (sobretudo quando se dá o primeiro contacto verbal entre mundos -como se vê no trailer).

"Another Earth" é um exemplo puro do que é cinema independente. Falo de filmes onde normalmente há poucos recursos financeiros mas que com criatividade e uma boa história para contar sobressaem. Este foi filmado em digital, câmera ao ombro durante todo o filme, é a primeira obra deste jovem realizador/autor, cuja parceira além de protagonizar o papel principal também co-escreveu o argumento com o realizador e ambos produziram o filme pelos seus próprios meios. Por exemplo, um facto visível e curioso é a casa escolhida onde se passa grande parte deste drama, ser da própria familia do realizador (da mãe dele).
Normalmente é no cinema independente, vulgarmente apelidado de indie, que estes novos realizadores tentam provar  o seu profisionalismo e qualidades técnicas. Neste "Another Earth" o realizador usa um recurso técnico que não é muito comum: ele faz imensos zoom in e out com muita rapidez enquanto filma. É como se tivesse muitas vezes o dedo nervoso sobre o botão de zoom. Ao inicio estranha-se mas depois percebe-se bem o uso dramático que ele dá a esta função pouco (ou nada) utilizada durante as filmagens. É uma das vantagens do cinema indie, que por estar fora do circuito comercial, poder fazer este tipo de experiências...


Mas afinal, de que se trata este filme?

"Another Earth" é um drama indie sobre o peso na alma de quem não consegue se sentir redimida de um crime cometido (mesmo tendo cumprido pena) e que lida com o factor redenção... e tem em background o curioso facto sci-fi de uma espécie de espelho cósmico, onde nos céus se vislumbra uma segunda Terra, exactamente igual á nossa... representando assim um alento de esperança para a personagem principal.

"In the grand history of the cosmos, more than thirteen thousand million years old, our Earth is replicated elsewhere. But maybe there is another way of seeing this world.
If any small variation arises-they look this way, you look that way-suddenly maybe everything changes and now you begin to wonder, what else is different?
Well, one might say that you have an exact mirror image that is suddenly shattered and there's a new reality. And therein lies the opportunity and the mystery.
What else? What new? What now?"


A jovem sente-se culpada de ter estragado irreparavelmente uma familia e tudo faz para se redimir tentando pedir perdão ao visado... só que no momento certo vacila. Enquanto isso gradualmente a Terra-dois está cada vez mais próxima. De tal forma que o mero ponto nos céus, atinge gigantes dimensões e se torna omnipresente na interrogação deste mundo. Como será a outra Terra? Sendo tudo igual... também existirão duplicados de cada pessoa?
Isto entre imensas mais questões mas que para a personagem principal se afigura como uma segunda oportunidade pessoal. Será que pode alcançar a paz na alma podendo viver uma outra vida noutro mundo?
Pois... nenhumas destas respostas são de fácil a resposta e o problema vai se abatendo à medida que os cientistas e filósofos debatem e lançam as suas teorias sobre o que se poderá encontrar por lá...

"Within our lifetimes, we've marveled as biologists have managed to look at ever smaller and smaller things. And astronomers have looked further and further into the dark night sky, back in time and out in space.
But maybe the most mysterious of all is neither the small nor the large:
it's us, up close.
Could we even recognize ourselves, and if we did, would we know ourselves?
What would we say to ourselves?
What would we learn from ourselves?
What would we really like to see if we could stand outside ourselves and look at us?"



Digamos que ao de leve lida com o factor dos mundos paralelos mas sem com isso ser como na série Fringe.
É todo ele intrigante, especialmente quando termina... deixando ainda um desfile de alguns muito interessantes sub-textos neste filme (o idoso que trabalha com ela que se auto-penitencia; a forma como a famíla dela é colocada neste filme; e por fim as questões, existenciais e em último caso até paradoxais, sugeridas em aberto para reflexão.)


Recomendo descobrirem a quem aprecie cinema independente ou dramas... ou que tenha predisposição certa.

Classificação:
8/10



8 comentários:

Bruno Cunha disse...

É um filme que pretendo ver até pelo prémio de Sundance que referes.


Abraço
Frank and Hall's Stuff

ArmPauloFer disse...

Vê sem compromissos e com predisposição, pois pode bem ser que até venhas a gostar da abordagem deste filme ao dramas existenciais. Não tem mal se não gostares...

Michelle disse...

Você pode ouvir a música do filme Outro Terra (viu a cena musical) no site do compositor: http://www.scottmunsonmusic.com/news/music-in-film-another-earth-soundtrack/

ArmPauloFer disse...

É um belo momento musical do filme, que tem uma boa banda-sonora. Obrigado.

João Sousa disse...

Este texto deixou-me francamente com água na boca. E Brit Marling parece-me, por aquilo que tenho lido, uma jovem extremamente bonita, inteligente e talentosa - combinação que sempre me derreteu.

ArmPauloFer disse...

Não eleves muito as expectativas para poderes ver o filme como ele é. É um drama calmo e se não gostares... tudo bem.

Daniel_Green disse...

SIMPLESMENTE SENSACIONAL!

Funny Felt disse...

Logo no começo achei que eu fosse desistir do filme, mas felizmente me mantive a frente da tela e finalmente adorei o filme, achei sensível, inteligente, dramático e curioso. Vale a pena ver.