The Outlaw Josey Walles / O rebelde do Kansas
Realizador: Clint Eastwood
Com: Clint Eastwood, Chief Dan George, Bill McKinney, Sondra Locke...
Clint Eastwood realiza e protagoniza este magnifico western de recorte clássico. "O Rebelde do Kansas" mostra a busca de justiça pelas próprias mãos de um pobre homem, Josey Walles, que de repente e sem nenhuma razão, perde tudo perante um grupo de bárbaros: a família (o filho ainda criança e a sua mulher), a casa e todos os seus bens.
Josey Walles, sedento de vingança e sem nada, parte no encalço do grupo e isso acaba por se tornar numa enorme odisseia pessoal e de redescoberta.
Josey Walles é um solitário, de pouca ou nenhuma conversa mas que se percebe do seu interior as convulsões do desgosto ao mesmo tempo que aparenta ser alguém calmo e de poucas palavras.
A sua jornada coincide com os tempos de guerra civil entre Norte e Sul, onde pelo caminho se vê obrigado a juntar aos tropas. É num desentendimento entre facções que ele decide se virar contra os Yankees, pois se vê no meio de uma estratégia para acabar com o seu grupo e com uma potente arma automática (de manivela) ele decide se virar contra eles (e com a ajuda de outros membros) arrasar com o acampamento, acabando por reconhecer o bando que lhe matou a família. O bando foge e ele igualmente, tornando-se num desertor, complicando ainda mais a sua condição. Contudo, o desejo de vingança colocam-no novamente na sua jornada.

A jornada acaba por não se fazer solitária pois conhece um velho indio, também ele na condição de excluído e sem nada, que se decide a o seguir e se torna seu companheiro. Sucessivamente vai conhecendo pelo seu caminho em direcção a Oeste, com uma india (que a salva duma injusta escravatura e consequente violação) que se torna sua seguidora por razões de honra. Também se deparará com um jovem aventureiro, que é mais gabarola do que parecia e por quem Josey Walles assume uma atitude quase paternal e até mesmo um cão, que o segue fielmente. Juntos nesta odisseia rumo ao Oeste, defrontarão diversas adversidades e inimigos pontuais, incluindo uma família que haviam conhecido numa civilização, que se encontra numa emboscada de ladrões e... Josey Walles decide proteger a indefesa mãe e a sua pura bela filha. Tudo isto conduzindo-se sempre no encalço daqueles que lhe restam cumprir a sua sede de vingança, conduzindo-se a um inevitável duelo final.
O que mais apreciei neste filme de Clint Eastwood, é o sentido de jornada que representa as voltas que a vida dá. São momentos destes que mudam uma pessoa e o sentido da vida, de alguém inconformado com a tragédia que se lhe abateu à sua vida calam e pacata. Um solitário com uma causa, que se vê gradualmente com um crescente apoio humano, de gente que à sua maneira têm também algo em comum. Na realidade, são pessoas sem ninguém como ele, igualmente carentes de humanidade e um rumo, que se redescobrem entre si pela possibilidade do conforto e empatia humana onde menos se esperaria.

É uma bela história, um belíssimo western de redenção com verdadeiras personagens, onde por vezes a falta de detalhes imediatos de cada uma, se vai intuindo e lentamente conhecendo melhor. Muitas das vezes percebemos mais pelos gestos, olhares, atitudes e conduta do que propriamente pelas poucas falas de cada um (ou fica por falar). Faço também uma importante referencia ao velho índio que o acompanha pois é uma daquelas personagens e tanto. Daqueles que diz muitas coisas acertadas, por vezes bem divertidas (um grande contraste com a personagem de Eastwood) e que é uma performance muito interessante do actor.

Como western nada lhe falta, a começar por um Eastwood que parece consciente dos seus trabalhos anteriores, cuja carreira marcante tem nos incontornáveis "O Bom, o mau e o vilão" e "Por um punhado de dólares", alguns resquícios. É um western repleto do imaginário tão característico, desde as pequenas cidades abandonadas, índios, perseguições em grandes cavalgadas, travessias de rios, grandes tiros e bons duelos de balas cruzadas... só que aqui à mistura num argumento cujas subtilezas e subtextos o tornam em algo melhor do que à partida seria de supor.
Ahh... e nem as célebres desafiadoras cuspidelas para o chão estão ausentes.
Este filme é admirável, a realização de Eastwood é sem virtuosismo mas plenamente eficaz. Aqui se percebe até melhor a força de certas motivações que Clint Eastwood continuaria a dotar em muitos filmes posteriores a este. Refiro-me claro ao "Imperdoável" de 1992, pois com alguma imaginação mais rebuscada até se poderia quase ver este "Rebelde do Kansas" como uma espécie de prequela aparentada (entenda-se que não têm relação alguma sequer... mas no Oscarizado filme de 1992, encontramos um cowboy já velho mas com um passado atribulado que bem poderia ter sido este).
É sempre uma boa surpresa a descoberta deste filme, que não é uma obra maior no género mas que é bem melhor do que esperava obter e continuamente cativante até ao fim.