quarta-feira, 30 de julho de 2008

Batman "The Dark Knight", a review -parte 1

A esta altura já imensa gente viu, finalmente o novo filme do Batman "The Dark Knight - O Cavaleiro Negro". Eu vi-o no Sábado seguinte à estreia... e adorei imenso! Saí da sala até sem fala... pois mais uma vez vi o cinema a ser arte.

Este filme tem de ser apreciado por ele mesmo e não porque um tal actor do elenco faleceu antes do filme estrear. Acrescento ainda que este filme conta uma história humana com negros contornos trágicos até, apesar de se tratar aqui de super-heróis oriundos da BD, pode-se ver neste filme como algo mais que isso. Aqui se conta a história de pessoas que têm a sua própria missão ou motivação, acabando nalgumas das personagens tragicamente em obsessões.

Mas como falar deste filme sem excluir a carga histórica que ele arrasta?
Bem é necessário ir ao inicio (e com isso alongar-me como sempre no discurso/artigo)...


Breve contextualização

Em 2005, o realizador Christopher Nolan surpreendeu todos com o seu "Batman Begins - O Inicio". A personagem da BD em cinema tinha sido arrastado para a decadência com os dois filmes de Joel Schumacher (saiba mais aqui). No entanto, Nolan injectou uma nova vida ao super-herói Batman. Em "Batman Begins", o franchise é recomeçado e como tal nada melhor do que iniciar pela origem da personagem só que desta vez o tom e a abordagem procuravam realismo.


Afinal, Batman é um super-herói que não tem super-poderes, não pode cometer proezas não-humanas como o Super-Homem, não foi picado por aranhas radioactivas como o Homem -Aranha, não foi exposto por radiações como o Hulk ou o Quarteto Fantástico, não nasceu mutante como os X-Men. Batman é simplesmente um a pessoa comum que decidiu com a ajuda de muitos gadgets e o aspecto tenebroso dos morcegos, perseguir os ditos maus e assim ajudar a sociedade a livrar-se do crime.

Pois bem, o realizador Nolan, estudou o manancial de aventuras BD que ao longo de décadas fizeram as delícias de muita gente (como eu por exemplo) e tentou devolver-nos uma parte do Batman tal como Bob Kane (desenhador) e Bill Krane (argumentista) criaram em 1939: uma espécie de detective obcecado em combater o mal como resposta ao assasinato dos seus pais que presenciou em criança. Bruce Wayne, orfão, cresceria traumatizado. Apesar de extremamente rico (herdeiro de uma grande fortuna), cresceu sem ter uma família, ninguém excepto o mordomo da mansão dos pais. Alfred, o solitário mordomo, assumiu-se como responsável do menino Bruce, que educou e seguiu fielmente como um tributo aos seus patrões que o acolheram. Um dia e já adulto, Bruce Wayne assolado pela inquietude de querer fazer alguma coisa para vingar os pais, que por via da justiça o criminoso sai impune, decide que deve atacar não um mas todos os criminosos. Para isso teria de ser alguém diferente mas ameaçador e assim tornou-se Batman.

"Criminals are a superstitious, cowardly lot.
So my disguise must be able to strike terror into their hearts.
I must be a creature of the night.
"
- Bruce Wayne, AKA Batman, Detective Comics #33 - Novembro de 1939



O cinema já viu esta personagem várias vezes e normalmente abordou-a de diversas formas.
Desde que surgiu Batman na BD, este tem sido interpretado ao longo dos tempos (e das evoluções sociais) das mais diversas formas, facto que por ser um herói muito diferente dos outros permitiu que ao longo de todo este tempo fossem surgindo adaptações muito especiais e que transportaram a personagem para novos níveis e narrativas. Batman inspirara bastante os diversos criativos pois permitia ser reinterpretado desde um estilo muito super-herói até às histórias mais tenebrosas e macabras a roçar o terror.

No cinema passar-se ia o mesmo pois se nos anos 60, a série de TV e o filme que se lhe sucedeu, apresentaram Batman num estilo de caricatura cómica. Só em 1989 e com o realizador Tim Burton é que seria abordado de forma mais negra (com ambientes mais góticos mas ainda fantasiosos) com o filme "Batman", que anos mais tarde nos brindaria definitivamente com uma ainda melhor adaptação com a sequela "Batman Returns" (1992)... e nada mais seria o mesmo!
Ao segundo filme, Tim Burton, deu-nos um filme pujante visualmente, onde adensou ainda mais os tons negros e trágicos que cada personagem carrega (especialmente os vilões), permitindo-nos inclusive obter leituras adultas e sérias num filme de super-heróis, deixando assim um standard de como se deve passar a fazer.
A Warner Bros, não apreciou o rumo negro que Tim Burton estava a dar a Batman e decidiu mudar de ares e estilo, despedindo o realizador e contratando Joel Schumacher para fazer as sequelas mais coloridas e com temáticas mais alegres... provou-se um erro tão fatal que a personagem passou anos de amargura. Até a aparecer Nolan...


Batman Begins - O inicio

O filme "Batman Begins" adapta e evoca a origem de Batman (e não só) e adiciona-lhe como inspiração várias partes das interpretações mais negras da personagem. Batman é uma espécie de vigilante da noite numa cidade dominada pelo crime, corrupção e com falta de esperança na justiça. Isto remete imediatamente para a graphic novel de Frank Miller na década de 80, intitulada "Batman Year One - Ano Um" (1987), onde a abordagem é agora mais intensa e realista.

Frank Miller já havia abordado antes do "Ano Um" a personagem Batman, com a edição de "The Dark Knight Returns" onde nos deu um Batman mas velho (55 anos) e à procura de um segundo Robin, depois da morte do primeiro. A saga terminaria com uma luta com o Super-homem. Foi um imenso sucesso e ainda hoje, segundo afirma a DC ainda são impressas as BD's que ele fez para esta personagem, que são já BDs best-seller de sempre. Mas seria em "Ano um" que Miller abordaria as origens da personagem, numa espécie de prequela da "Returns". A abordagem teve tanto impacto que acabou por deixar marcas...  

Na graphic novel, existe mais humanização da personagem e é daqui que ressalvo um diferente comissário James Gordon, que chega de Chicago para Gotham City e vê a justiça não ser respeitada pelo lado da lei, tenta assim lutar contra o crime mas em vão pois vive rodeado de corrupção e os valores morais em baixo (inclusive dentro da própria Policia). Na abordagem de Frank Miller, o Tenente James Gordon não é mais aquele incompetente policia como toda a vida foi retratado nas histórias BD anteriores e nas serés de TV e animações. Jim Gordon, ganha profundidade e importância ao nível que Batman tem, e enceta a sua luta, sujando as mãos nela em cenas de acção e tudo.

Gordon, chega a pontos de já não ter esperança no sistema e também não tem aliados na sua obsessão de fazer respeitar a lei. Para Gordon, Batman é mais um que ele deve perseguir para manter a ordem até começar a notar nele semelhanças nos objectivos. 

Os dilemas do tenente James Gordon, na BD de Frank Miller
em "Batman Ano Um" - Vol. 3 -  Pág. 22 (clique para ampliar e ler)

Gordon apreciará Batman, não só porque este lhe salva o filho da morte certa ás mãos de um bandido mas também por este representar algo de nobre, apesar dos seus métodos à margem da lei e pouco ortodoxos. Acabam tornando-se aliados pela mesma motivação, ganhando confiança inabalável um no outro...  mas secretamente.
Batman e Gordon são assim duas faces na cidade, que se erguem no mesmo combate à criminalidade num relacionamento de cumplicidade profunda mas à margem da lei.
(Vejam as páginas desta BD pelo site da Amazon - clique aqui)

"Batman Begins" usa essa mesma matéria e adiciona-lhe ainda mais algumas coisas, como o motivo amoroso, e tudo isso ancorado numa linguagem cinematográfica de lógica e paralelismos com a realidade. 

Perante a BD, o filme é muito credível e inteligente, sem exageros tipicos nestes filmes como o uso do CGI, não o transformando nas fantochadas habituais feitas no género de super-heróis com hiper-situações só possíveis pelos efeitos especias.

O filme foi um excelente blockbuster em 2005, com uma argumento longo, inteligente, lógico, repleto de acção e com novidades muito interessantes ao nível dos gadgets da personagem (o Batmóvel desta vez surge como Tumbler, uma espécie de tanque militar repleto de artificios mas sempre espectacular e coerente com as linhas mestras do filme).
O elenco do filme também não foi desprezado e contou com Christian Bale (no papel de Bruce Wayne/Batman), Michael Caine, Gary Oldman, Liam Neeson, Cillian Murphy, Katie Holmes, Morgan Freeman e ainda o Tom Wilkinson, entre outros.

Nolan teve ainda o cuidado de nos mostrar o herói em cenas, situações e poses de pura antologia BD. As cenas dele vigilante no topo dos edificios como um gárgula, a forma de aparecer e desaparecer pelas trevas da noite, a sua capa estendida como um morcego nas cenas de voo planante.
Por fim, devo referir a mais deliciosa de todas que é quando Batman está a ivestigar à chuva pendurado num cano da parede dum edificio... parece que estava a ver os traços estilizados de Frank Miller. Para os amantes de BD e desta personagem, até comove ver finalmente poses destas serem lembradas. Um outro detalhe é o simbolo do morcego no peito de Batman ao estilo da criação original de 1939, que nessa altura não tinha a oval amarela (que foi introduzida mais tarde para o tornar mais identificável e cool).


"Begins" resultou muito bem e posiciona Batman num novo patamar de abordagem BD (um combo das melhores abordagens da personagem) e com novos dilemas muito reais: quando alguém com tanta "teatralidade" na forma como se apresenta, acabará por ser ele o próprio inspirador de uma nova era de criminosos, desencadeando a tal "escalada" que no fim do filme o (ainda) tenente Gordon refere a Batman.
A ideia que daqui resulta é que a situação criminosa existente em Gotham City, tem de se adaptar e tentar ultrapassar o que lhe faz frente... e quem faz frente ao crime é Batman principalmente.

É nesse momento final do filme, que Gordon dá também uma carta (dos baralhos) de alguém a apelidar-se como o Joker e usando os mesmos artifícios de Batman, deixando o mote para um novo filme.

Fazendo uma analogia com a informática, o mal parece então estar a surgir numa versão 2.0 e os pressupostos nobres de Batman e tudo aquilo que representa, são postos em questão apartir daí.

É com esta premissa e panorama que nos é chegado o filme "The Dark Knight"... e será apartir desta contextualização (ou tentativa de) que regressarei num próximo artigo para falar do recente magnífico filme.



Clique aqui e siga para a parte 2, a conclusão deste artigo.

Imagens do filme "Batman Begins" via Rotten Tomatoes.
Pode saber mais detalhes sobre Batman pela Wikipedia, de onde também usei as covers da BD clássica e também pela respectiva página da wiki de "Batman Year One - Ano Um".


Saiba mais sobre filme pelos vários artigos já publicados aqui no blogue. Clique aqui!

21 comentários:

Rodrigo M. Ramos disse...

Muito boa a introdução para o review.
Só discordo que o filme Batman Begins remete a HQ clássica The Dark Knight Returns (minha favorita até hoje).

Acho que o primeiro filme é quase uma adaptação da excelente HQ Year One (Batman - Ano Um) de Frank Miller e David Mazzucchelli, com o acréscimo de mais detalhes e personagens.

Aguardo a parte 2!

ArmPauloFerreira disse...

Rodrigo e não é que tens mesmo razão e estmos mesmo de acordo: é ao "Batman - Ano Um (Year One)" que me refiro (aquela que tive quando muito novo e que me fez olhar para a personagem de forma mais intima até). Procurei por isso e deparei-me com o Dark Knight Returns e na pressa pensei que o título se referia a isso. Vai ser corrigido já. Obrigado pela chamada de atenção.

Mariana disse...

bom post este,mt bem explicado para quem como eu nao percebe mt do assunto "batman".
bj

iCeCube disse...

_excelente post!!! ;)

Peter Gunn disse...

Impecável resumo da história do Homem Morcego neste que é mais um belo post como sempre Sr. Paulo! =)

Fico a aguardar a 2ª parte!

Um abraço

middle finger disse...

Fabuloso!
Uma descrição fabulosa do Batman que me elucidou para alguns aspectos do filme que eu pensava ter compreendido. Agora sim compreendi a verdadeira essência do Batman, como não li as BDs não percebia certas características das personagens.

Mais uma vez magnifico ... tenho andado a vasculhar no teu blog e tenho-te a dar os parabéns .... muito interessante!

Ansioso pela segunda parte do texto,
Bruno R.

Wellington Almeida disse...

belo post ;)

Rodrigo M. Ramos disse...

@ Mariana:
Oi Mariana, na verdade é quase "irrelevante" conhecer tão bem o Batman em The Dark Knight. Não é somente um filme de super herói, mas sim um filme sobre como o caos e a corrupção podem levar uma cidade e uma sociedade à ruína e ao desespero.

bj

Mariana disse...

rodrigo eu vi o filme,sei do q s trata mas sp gostei mais do homem aranha,é o meu super heroi preferido lol

ArmPauloFerreira disse...

@ Todos: Muitissimo obrigado pelos elogios ao artigo!
Fizeram-me sentir especial quando apenas estou a falar de coisas que gosto. Afinal, há mais gente que entende o que digo... julgava não ser possível.

Tenho pena de ainda mais alguns por aí não opinarem também... mas está-se bem!

@ Rodrigo: mais uma vez obrigado pela dica e pela intervenção acertada, perante a Mariana, da qual comungo a mesma visão do teu comentário. Ahh.. e não se pode estar sempre a falar de Apple, não é? Life is bigger than only this...

@ Mariana: É isso mesmo! estás a ser fiel a ti mesmo e ao que gostas. O Spiderman (especialmente o 1 e 2) merece porque foi uma brilhante adaptação da personagem, que como bem sabes, move-se em situações e estilo bem diferente. Spiderman tem muita personalidade e carisma, daí podermos adorá-lo como eu também o adoro. A minha primeira BD (HQ) Marvel ou DC, foi o Homem-Aranha (nº6) em 1981, que ainda tenho muito bem conservada (para terem uma noção do quanto gostei enquanto ainda puto). Abriu-me horizontes...

Rodrigo M. Ramos disse...

@ Mariana: Também gosto do Homem Aranha (1 e 2, claro)!
bj

@ Paulo: Com certeza! Já tem muita Apple na minha vida... De vez em quando até demais para o meu gosto! Hahaha

ArmPauloFerreira disse...

@ Rodrigo: O meu blogue é reflexo disso mesmo...
E então, já viu a parte 2? O que achou?

Rodrigo M. Ramos disse...

Gostei muito da parte 2 também!
Review digna de crítico de cinema.

ArmPauloFerreira disse...

@ Rodrigo: Ok e obrigado pelos elogios, puxa!

Entretanto sinto que a parte 1 saiu mais interessante por a reflexão recair entre BD e filmes. A segunda parte não tem essa componente (porque é a continuação do mesmo artigo que apenas está separado em dois) mas acho que está à maneira também (apesar de ser tão extensa como o filme o é também).

Bibitcanus disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
Bibitcanus disse...

CAro armpauloferreira,

parabéns pelo texto, está absolutamente digno tanto de um bom apreciador de Banda Desenhada quando um admirador da sétima arte. Esses últimos dois filmes do morcegão realmente recuperam o sentido do personagem. As sequências do Joel schumacher tentaram carnavalizar demais o personagem, o cume disto foi a idéia para o bat-cartão de crédito. Parecia que o Batman havia pulado de alguma piada sem graça para as telas. Como mencionado por você no comentário deixado em meu espaço, realmente gosto dessas coisas e por isso me interesso em ler tais comentários como o apresentado aqui.
Coloquei o seu blog na secção dos "blogs apoiados"
Abraços.

ArmPauloFerreira disse...

@ Bibitcanus: Gostei do seu blogue e já está adicionada aqui no meu espaço (blogroll, live blogroll e ainda nos meus feeds RSS). Obrigado pelos elogios e por ter gostado da minha review.
Acredito que vamos nos cruzar mais vezes na blogoesfera. Força grande!

Hugo Gomes disse...

Vou ser breve; é a melhor critica do filme The Dark Knight que tive o previlegio de ler, quer em publicações pagas quer na internet. Bem contextualizado, abragente, complexo. Bem, parabéns.

ArmPauloFerreira disse...

Muito obrigado pela sua apreciação e também por ter gostado do artigo.
Vindo de um critico de cinema é... um grande elogio! Obrigado!!!

O Narrador Subjectivo disse...

Gostei muito de ler este artigo, era das poucas BDs que seguia e o filme é realmente maravilhoso, mas agora à distância gosto ainda mais do 3º :)

Arm Paulo Fer disse...

Ora viva Narrador!
Olhando para trás, e discordando, acho que o Nolan perdeu-se um pouco. Mesmo tendo tão bem atado ligações ao primeiro filme, acho que foi prejudicial ele ter ignorado o segundo tomo da trilogia e sobretudo o Joker. Apesar de ter algum desencanto neste terceiro filme mesmo assim acho-o BOM (7/10) e tem implicações à realidade (em termos politicos e financeiros) que achei muito admiráveis. Mesmo assim admiro mais os dois primeiros... :-)