segunda-feira, 25 de janeiro de 2010

Series TV: algumas series subversivas...

Com o boom televisivo ocorrido na década de 2000 com as séries, estas foram gradualmente indo mais fundo em algumas questões e temas. No meio de tanta produção, algumas forma surgindo com temáticas mais invulgares e algumas inclusive mostraram-se tematicamente algo subversivas.

É este o nome que lhes atribuo: subversivas.
Pode nem ser o mais correcto mas é assim que as considero.

Na realidade até aqui a televisão exibia tudo de maneira politicamente correcta e em regime do bem contra o mal... ou então seguiam sempre os considerados bonzinhos, etc.
Contudo com alguma habilidade narrativa fomos sendo gradualmente expostos a séries onde o outro lado nos mostraram outras realidade e vivências. Por exemplo o crime ou a sexualidade têm sido muito mais abordadas de maneira mais criativas do que os habituais clichés de sempre.


Faço aqui uma pequena lista de algumas séries onde, na minha opinião, a subversão dos hábitos e regras foram desfilando:



The Sopranos / Os Sopranos

Acompanhar o mundo da Máfia e ficarmos do lado de alguns (ou da familia de Tony Soprano) ao longo de tantas temporadas e ainda por cima, a torcer por gente que no fundo são bem mais que criminosos. Ahh... e esqueci de dizer que este chefe da Máfia, sente-se stressado e algo deprimido com a vida que leva (ter de dar ordens, decidir quem matar ou não, resolver todos os problemas... só maçadas!) e tem de recorrer á ajuda de uma psicóloga?
Do melhor que já passou na TV!




Quando gente rica perde tudo, inclusive a mulher ficar viúva e com filhos, que solução é que foi tomar?
Vender droga, manter as aparências e o nível social que sempre teve.
Uma autêntica viagem que nos leva a acompanhar desde a simples revenda de umas folhitas para charros, à complexidade de a produzir e vender em larga escala, às guerras entre dealers, o relacionamento com um agente federal (para ajudar a encobrir), o casamento com um grande traficante e tudo o mais que se possa imaginar.
No fundo a vida de Nancy, transformada numa fora-da-lei, sempre servida em doses de muito humor negro.




Se Nancy e Tony Soprano estão do outro lado da lei, o que se poderá dizer de Dexter?
Bem, Dexter Morgan é um membro da Policia de Miami, um investigador forense mas que esconde um gigante segredo: ele é um psicopata, um secreto serial-killer, no fundo lobo disfarçado de cordeirinho inocente. Dexter funciona segundo os seus próprios princípios, o código, e mata pessoas. Tem algum altruísmo no que faz pois só escolhe vitimas à qual a justiça não os apanha e que escapam desta. Os seus alvos são as pessoas "más" e criminosos.
No principio era assim, tudo em termos simples, até que gradualmente o seu lado psicopata o conduz a crimes cada vez menos racionais. Ao mesmo tempo Dexter tenta levar uma vida normal, com mulher e mais tarde filhos, atender a família e a sua irmã (que é uma detective... ooops) e manter os amigos, num jogo de aparências de normalidade.
A sua condição de serial-killer dão-lhe também capacidades extra como investigador forense, facto que o torna o melhor do seu departamento... No fundo cada caso é para ele um desafio e se tiver um modus operandi que dê para ele aprender alguma coisa ainda mais o intrigará.
A série faz com que subversivamente estejamos sempre a torcer por ele. Reparem bem no detalhe: continuamente a torcer por um psicopata serial -killer! Não é preciso dizer mais...



L-Word / A letra L

O mundo dos relacionamentos amorosos das mulheres... mas (todas) lésbicas.
O homem nesta série é mesmo reduzido a quase figurantes.


Swingtown

Desta vez deparamo-nos nos anos 70 e com as trocas de casais.
Duas famílias amigas que mudam de residência e que descobrem pelas exuberantes festas particulares dos seus vizinhos, um mundo de experiências novas. Ao mesmo tempo a troca de casais serve de motivo para concretizar os desejos secretos que uma das mulheres nutre pelo seu vizinho...




Uma série da HBO, onde retrata uma situação que a sociedade em geral repugna. O tema é a poligamia e a cultura mormon e isso por si só já é chocante e de dificil digestão e aceitação. Contudo, a série Big Love não pede que aceitemos a poligamia. O seu objectivo mostrar esta realidade, que afinal é bem mais real do que parece, pois existe e não é passível de ser ignorada só porque não se rege pelas nossas regras. Ao mesmo tempo coloca em questão a sociedade e obviamente a religião, colocando-se tanto de dentro desta práctica como do lado de quem não a admite. Tudo começa por Bill Henrickson, um homem de negócios que vive nos subúrbios da América e que tenta por tudo esconder vive sobre os Principios da poligamia. Tem 3 mulheres em casa e imensos filhos e quer sobreviver dessa maneira... mas ninguém pode saber. E daí chegam as inúmeras complicações e as repercussões com o resto da sociedade mórmon.
Uma das grandes séries subversivas da TV.



Secret Diary Of a Call Girl / Diário Secreto de uma Call Girl

Esta série "Secret Diary of a Call Girl" mostra a vida secreta de uma prostituta (como Belle), que tenta conciliar esse lado com uma vida normal (como Hannah).
A série passeia-se em tons de quase comédia romântica e centra-se mais nas dificuldades de manter uma relação amorosa com alguém, esconder o que faz e todos os dilemas que sobressaem da vida que leva. Sempre com um tom didáctico (são histórias de um diário e alguns momentos humorísticos á mistura (Ex: "-Porque escolheste o nome Bambi?" "- Porque a minha mãe também já morreu.")
Estreia a 25 de janeiro a 3ª temporada... e as temporadas são de poucos episódios (8) e de curta duração.



E para não alongar demasiado a lista, deixo uma menção honrosa a séries como "Nip Tuck" (dois cirurgiões plásticos mui sui generis), a "Californication", "Sete Palmos de Terra" e em certa medida também há algo de subversivo em "True Blood".
Devem haver mais... até porque não sou um grande nerd de TV Shows.

4 comentários:

João Sousa disse...

Já agora, eu sugiro três produtos subversivos de há anos: Simpsons, Twin Peaks e Ren&Stimpy.

Embora eu não seja um estudioso do fenómeno televisivo, penso que parte deste fenómeno tem a ver com os canais de cabo que permitem conteúdos menos purificados. Dificilmente se veria, num canal aberto, um personagem lançar tantas F-Bombs como a Debra Morgan, por exemplo.

Já há alguns anos, o João Miguel Tavares publicou uma crónica em que chamava a atenção para esse facto: verificou-se uma inversão de qualidade e é nas séries de televisão que se vêm os melhores produtos audiovisuais. Já na altura eu reparava nisso: o melhor produto sobre a Máfia estava na televisão e chamava-se "Sopranos"; o melhor produto de acção/espionagem estava na televisão e chamava-se "24" (entretanto, o cinema reabilitou-se com o Bourne).

Mas parte do problema está na forma como a indústria do cinema vê as suas receitas. Na essência, o público-alvo das produções mais visíveis são os adolescentes. Isso obriga os filmes a serem menos complexos e mais limpos, em visual e em linguagem. Ainda há pouco tempo eu estive a rever o "Conan, the Barbarian". Nunca, hoje em dia, um estúdio de cinema lançaria um filme daqueles sem ser para PG-13 - e isso implicaria um filme completamente diferente e muito menos interessante. Naquele tempo, pelo contrário, permitiram sangueira a espirrar.

ArmPauloFerreira disse...

O mundo vive agora segundo paradigmas "comerciais" sendo o que é bom algo relativo. Se não render é porque não vale a pena investir mais nisso. Logo não presta ou interessa.
Os investimentos estão dirigidos a onde está a massa. A juventude é a mais impressionável no consumismo e deseja sempre coisas novas.
A realidade é que tudo mudou em torno destas novas noções. A saga Twilight pode não prestar mas rende e tem investimento garantido. O marketing ajuda é certo a garantir mas a verdade é que o nível cultural tem baixado bastante.

As séries da TV mais ousadas, penso que têm sido bem sucedidas porque surgem principalmente nos canais privados de cabo não generalistas. E a resposta que obteram foi um grande boom televisivo... ora as estações generalistas também têm feito apostas parecidas, mas mais mainstream e com limites impostos, para garantir lucros. Têm tido sucesso com esses produtos e algumas séries por vezes necessitavam de serem ainda mais ousadas e negras e são impedidas de o serem... com resultado que depois nós criticamos também de ver algo que poderia ser bom mas a ser apenas fraca.

O cinema com os novos limites constantemente a serem considerados para poderem chegar a mais audiência, acaba por se traduzir em produtos mais "coitadinhos". Ao menos a TV consegue ir explorando uma ideia sucessivamente e deixando-a evoluir com o lema de que "para a semana ainda pode ser melhor".

"Twin Peaks" já foi em tempos aqui abordada fugazmente mas não a considero no espirito do que pretendia impor no artigo. O Ren&Stimpy está realmente no género. Os grandes Simpsons... são subversivos pelo espirito sarcástico do seu humor muito negro.
Não sou um desses nerd por séries mas realmente é nas séries que passam excelentes histórias bem aprofundadas. O cinema terá mais capacidade de explorara melhor situações. Por exemplo as séries procedurais tipo CSI, House, NCIS etc fazem isso por episódio.

João Bastos disse...

belo artigo... realmente as mais "polémicas", "subversivas" são talvez as melhores e mais bem sucedidas. Das que referes só vi "Sopranos" e "Dexter" (a minha série actual preferida). Depois as que o João Sousa refere são também icónicas e excelentes (o Ren e Stimpy eram tresloucados). Acrescentaria ainda as do Seth McFarlane (American Dad e Family Guy), o Ali G.....

ArmPauloFer disse...

Obrigado, João Bastos. Belos tempos em que dava para dedicar mais a blogar com substância nos artigos.
Há muitas mas essas eram as que na altura mais significavam das que via.
Sim, as que ambos referem são igualmente subversivas. Ideias e actos mesmo fora das normas eheheheh!
São séries que ao avançarem fronteiras temáticas deixam mais marcas na memória do que as boazinhas e inofensivas... as mais correctas da actualidade são as mais bem sucedidas mas ausentam-se em termos de profundidade temática. Penso eu... mas tem de haver de tudo também.
:-)