domingo, 10 de abril de 2011

Cine-critica: Afterschool (2008)

Afterschool / Depois das aulas
(2008)


Realizador: Antonio Campos
Com: Ezra Miller, Jeremy Allen White, Emory Cohen...


Este filme conta-nos o impacto e os dilemas de alguns dos alunos de uma escola onde se abateu uma tragédia que viria a deixar marcas em todos. Lida igualmente com o que acarreta ser popular e dar-se com os mais populares, colocando o dedo em muitos dos problemas que não são evidentes à superfície. Os bem comportados a serem corrompidos pelos que permanecem à margem dentro do circuito escolar.

Decorre pela perspectiva de um dos jovens, Robert, um bom rapaz, inteligente, culto (geek) e também um apaixonado videasta, com o habito de estar sempre a filmar o que o rodeia. Tem uma tal relação com as imagens que chega ao ponto de tal distanciamento indiferente do que vê, desde o que filma, presencia e assiste no computador (vídeos on-line, desde a violência à pornografia).


Partilha o quarto do liceu com um outro jovem bastante oposto a ele. No fundo, um jovem que é mais para o desordeiro, que se serve de esquemas para arranjar e vender drogas na escola, tendo como um dos targets os negócios com as adolescentes abastadas e populares (e assim até conseguir algum sexo). Este dealer para se safar de compromissos que não cumpre, levam-no a vender cocaína falsificada a duas irmãs.
Deambulando pelo colégio, num dos seus momentos de filmagens, ele é surpreendido com as duas a clamarem por ajuda. Ambas estão em agonia com uma brutal overdose de coca adulterada. No entanto, em vez de ajudar, fica petrificado e continua a filmar até as duas sucumbirem fatalmente.

"Afterschool" é um filme que também se assume voyerista do mundo destes jovens. Faz por ser um retrato imensamente realista de como vivem e existem hoje certas crianças e jovens nos dias de hoje. Realístico, cru, ostentativo mas sem artifícios, onde a visão dramática que nos oferece nos faz ficar entre várias partes que não se parecem interligar (filhos, pais, instituição de ensino). Como se os pais tivessem se imiscuído deles, por não mais saberem como lidar com o mundo em que eles hoje vivem. Os professores são agentes distanciados por também não verem mais para lá da "pessoa académica" e o espaço da instituição é um igualmente vazio de identificação, constituindo-se mais como um local de labirintos e patamares físicos mas não um lar. Tudo isso até a tragédia se abater...

Esta tragédia assola-se visceralmente pela instituição e transtorna-a. Há em muitos os sentimentos de culpa do sucedido. Uns directamente, outros pela fomentação generalizada dos hábitos e por fim as tais partes que não sabem já como fazer perante estes novos indivíduos. Ainda para mais no embate da instituição perante os pais a quem assolou a tragédia.

Por Robert ter filmado a cena, e lidar com video, é lhe pedido pela direcção da escola que faça um video sobre as duas irmãs gémeas mortas. Um video que lhes seja uma homenagem para que seja apresentado aos pais.
Há um diálogo nestas sessões em que ele produz o video com o director da escola, que lhe diz que o que ele fez não tem qualidade nenhuma. É parado e nem sequer ele usa música para dar mais efeito. No fundo, este momento é comparativo a todo o filme pois também não há aqui qualquer banda-sonora ao longo do filme. Todo o filme é também lento, hipnotizante, que progressivamente vai reforçando o drama dos conflitos que estão no cerne deste filme.

O realizador António campos, realiza aqui uma verdadeira obra-prima e este é ainda o seu primeiro e único filme, onde evidencia métodos em linha com o cinema de Stanley Kubrik mas não só, pois recordar-me-ia igualmente de Gus van Sant pelo ambiente também documental. Acredito que devido a não recorrer a artifícios de entretenimento, poderá não ser aliciante... mas recomendo a descoberta. Está aqui um grande filme e deveras pertinente.


Classificação:
8/10
Muito Bom

6 comentários:

Bruno Cunha disse...

Já estive para ver mas ainda não o comprei.

Abraço
Frank and Hall's Stuff

Tiago Ramos disse...

Grande, grande filme!

ArmPauloFer disse...

Também achei um grande filme e penso que bastante menosprezado pois não é muito falado até.
Vale a pena descobrir a quem não o viu.

Obrigado a ambos pelos comentários e pelo apoio.

Anónimo disse...

Não percebeste nada do filme, escreveste metade da critica e a outra foste roubar a algum lado. Para além de seres um atrasado mental não és honesto.

ArmPauloFer disse...

@ Anónimo: és o tipo de comentador espertalhão que só me merece a total indiferença. Contudo, misturado com os insultos escusados, há aqui acusações sérias que não devem passar em branco.

O filme é de 2008, e eu só o vi pela tv, perto de finais de 2010 e uma segunda vez em 2011. No entanto, já tinha ouvido falar sobre o filme, já tinha lido sobre ele (especialmente pelo caso da estreia fulgurante deste realizador), já foi mencionado num podcast de cinema que sigo... o que leva a haverem sempre noções que nos ficam sobre a obra, que depois de apreciada, podem, inconscientemente mas de forma personalizada, surgirem na refutação da critica. Isso é algo natural.
Agora dizer que o que aqui está foi "roubado", que não sou honesto e ainda por cima chamar-me de atrasado mental, tudo vindo de alguém que nem se identifica (escudando-se no anonimato, que dá sempre muito jeito) só revela falta de personalidade em assumir os seus actos cobardes, plenos de desdém, desinformação propositada e até quem sabe da mais pura inveja.

O que fez é feio e grave.
Dispenso a sua participação aqui, se é para fins como este. Vá á sua vida e pense em fazer algo de mais proveitoso. Seja mais positivo, ajude os outros a serem melhores e não a destruir os outros, como pretende fazer aqui. Olhe que até dá pena assistir a frustrados...

Marcio Roberto disse...

Eu o vi ontem, por causa do meu ator favorito e queria muito ver sua estreia no cinema, e apesar de ter gostado, confesso que não me foi tão bom quanto queria. As atuações estão ótimas, Ezra Miller esteve perfeito em seu primeiro papel, e a história é envolvente, crua e sem dúvida desconfortável, mas acho que precisavam se empenhar mais no roteiro para deixar as coisas mais claras e termos mais nuances dos personagens, em vez de deixar as coisas apenas pra imaginação, como por exemplo o fim do filme. Mas eu recomendo pra todo mundo, principalmente para pais e educadores.